CR7 – A queda de um Deus

O final do ano 2022 ficou marcado por Cristiano Ronaldo. Desde a
entrevista a Piers Morgan que ditou a sua saída do Manchester United,
passando por um Mundial abaixo das expectativas, onde, para piorar ainda
mais a situação, viu o seu eterno rival conquistar o título máximo, e
acabando na saída de cena do principal palco do Futebol ao assinar pelo
Al Nassr.
É um facto que Cristiano Ronaldo está no Olimpo
futebolístico. Se fosse construído o Mount Rushmore do Futebol, o seu
rosto estaria lá, juntamente com Diego, Pelé e Leo. No entanto, estes
últimos anos de carreira do astro português têm sido penosos e ameaçam
manchar 15 épocas estratosféricas onde bateu todos os records e
conquistou (quase) tudo o que havia para conquistar.
Ao assistir
aos mais recentes capítulos desta novela que é o fim de carreira do
Cristiano Ronaldo, a pergunta que fica na minha cabeça é: seria possível
ser de outra forma? Acredito que não. CR7 baseou a sua carreira no
objetivo de vir a ser o melhor e conseguiu atingir esse objetivo. E
atingiu-o através de uma ética de trabalho exemplar, reconhecida por
todos os seus antigos colegas e treinadores. Entre 2007 e 2020, Ronaldo
foi, a par de Messi, o melhor jogador do Mundo. Ele e o argentino
redefiniram aquilo que pensávamos ser humanamente possível no que toca à
excelência futebolística. Sem dúvida que a existência de um ajudou a
motivar o outro para ser cada vez melhor. Ambos seriam excelentes
jogadores mesmo que o outro não existisse, mas acredito que só atingiram
os patamares surreais que atingiram, por termos tido a sorte de terem
coexistido. Durante esses 13 anos, Ronaldo esteve sempre lado a lado com
Messi, e o argentino era o adversário perfeito para obrigar o português
a puxar os seus limites. É aí que acredito estar a explicação para este
final de carreira que não lhe faz justiça. CR7 passou o auge da sua
carreira a trabalhar obsessivamente como se não fosse o melhor quando o
era, e agora que o corpo já não consegue acompanhar a cabeça,
convence-se (e convencem-no) que ainda o é.
Quando forçou a sua
saída de Manchester, Cristiano Ronaldo estava convencido que poderia
escolher o clube onde continuar a sua carreira, que poderia fazer as
exigências que quisesse, desde o ordenado à titularidade absoluta, que
qualquer clube de topo faria de tudo para o ter. O problema é que, hoje
em dia, isso apenas é verdade para Ronaldo e para a sua entourage.
Nestes últimos 2 meses Ronaldo ofereceu-se a mil e um clubes e foi
rejeitado por outros tantos, o que, além de não ser bonito de ver, chega
a ser triste e degradante para aquilo que CR7 representou para o
Futebol. O português, ao dia de hoje, cabia em qualquer equipa do mundo,
bastando-lhe aceitar que, como qualquer um de nós, é mortal. Não há um
clube no mundo que, tendo a possibilidade de contar com Ronaldo “de
graça”, não o quisesse. Que clube rejeitaria a possibilidade de ter o role model perfeito para as suas camadas jovens? Que treinador não gostaria de ter CR7 como arma secreta no banco?
Cristiano
esteve tantos anos no topo, estendeu o seu auge tão para lá do que
seria expectável que pensou que era capaz de, com 38 anos, continuar a
ser o que era com 30. Ronaldo queria continuar a ser, com 38 anos, a
maior figura do maior palco do Futebol, e acabou a sair pela porta
pequena, e a ser apresentado quase como um freak show no terceiro
mundo do Futebol. Como português, mas acima de tudo como amante do
Futebol, resta-me apenas esperar que estes últimos tristes anos da
carreira de Cristiano Ronaldo não manchem as vinte épocas em que todos
fomos testemunhas do que é Excelência.
By: Ângelo Sousa


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