Seleção: Perder um jogo, ganhar uma geração
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Como
todos sabemos, Portugal perdeu domingo (14), em casa, contra a Sérvia, falhando assim
o apuramento para o Mundial 2022. A precisar apenas de uma vitória nos dois
últimos jogos, a Seleção Nacional caiu com estrondo a não ir além dum empate a
0 na Irlanda e duma derrota caseira frente à Sérvia. Mas se este desfecho pode
ter sido surpreendente para os adeptos mais desatentos, quem seguiu os últimos
4 anos da equipa das quinas não vai deixar de pensar “estava-se mesmo a ver”.
Ainda assim, o objetivo Qatar 2022 não está perdido. Segue-se um playoff no mês
de março onde Portugal, juntamente com os outros segundos classificados e
equipas apuradas via Liga das Nações irão lutar pelos últimos lugares de
qualificação da zona europeia.
Posto
isto, deixamos a pergunta no ar: será melhor para todos (adeptos, treinador,
Federação e jogadores) que a seleção falhe o apuramento para o Mundial? À
primeira vista pode parecer estranho, ou mesmo antipatriótico, mas analisemos
cada um dos lados
Os
Adeptos
A
esmagadora maioria dos adeptos portugueses torce por um dos 3 grandes, como
tal, está habituado a ganhar mais vezes do que aquelas que empata ou perde.
Quando isso não acontece, tendemos a responder de uma de duas formas: ou
aumenta o tom de contestação, geralmente para níveis absurdos e pouco
recomendáveis, ou nos desligamos, deixando de apoiar, ir aos estádios, etc. Se
é verdade que tal não se tem visto nos estádios, onde a nossa seleção contínua
a ser apoiada do início ao fim das partidas, também não é mentira que a
contestação a Fernando Santos tem vindo a crescer. Basta ouvirmos conversas de
café, lermos caixas de comentários nos jornais desportivos e blogues, ou vermos
programas de debate futebolístico nas televisões (excepto Canal 11), para
vermos que o estado de graça do Engenheiro já acabou e que um novo rumo é
urgente. É certo que a seriedade de todos estes fóruns é relativa, e as
opiniões tendem a ser todas muito inflamadas (para o bem e para o mal) pelo
momento, ainda assim, é notório o descontentamento dos adeptos pelo rumo que
vêm a sua seleção tomar como ficou bem patente no final do jogo com a Sérvia
com uma chuva de assobios e lenços brancos. Se continuarmos a insistir em algo
que claramente não está a funcionar, corremos o risco de voltar a tempos pré
Euro 2004 em que jogos da seleção não enchiam estádios e em que o ambiente era
de jogo amigável, sem cânticos, sem garra, sem alma.
O
Treinador
Como
selecionador nacional há 7 anos, Fernando Santos é, obviamente, o principal responsável
pelo péssimo período que a equipa das quinas tem vivido desde a conquista do
Euro 2016. Se a ele lhe devemos a conquista dos dois únicos títulos
internacionais (o Euro 2016 e a Liga das Nações em 2019), o Engenheiro não pode
passar pelos pingos da chuva nos maus momentos. O que aqui está em causa não é
o facto de não termos voltado a vencer uma competição. Portugal nunca foi
favorito a vencer europeus ou mundiais, estando, na melhor das hipóteses, entre
o lote de candidatos. O problema é que parece difícil fazer tão pouco com tanto
talento à disposição do selecionador. Portugal dispõe de jogadores em todos os
setoes que são figuras de proa de grandes equipas europeias. Na defesa temos
João Cancelo e Rúben Dias, titularíssimos indiscutíveis do Man City. O defesa
central é já considerado top-5 (talvez até top-3) na sua posição e Cancelo é um
dos nomes que estão constantemente na discussão sobre quem é o melhor lateral
do mundo neste momento. Nesse setor temos ainda Nuno Mendes que apresenta um
nível altíssimo para a sua idade e é visto, a par de Alphonso Davies, como o
grande leteral esquerdo dos próximos 10 anos. No meio campo, contamos com Bruno
Fernandes e Bernardo Silva, titularíssimos indiscutíveis nos seus clubes e dois
dos melhores médios a atuar na Premier League. A estes dois podemos juntar
Renato Sanches e João Palhinha que, embora sejam 2 portentos físicos, são muito
mais do que isso. Não esquecendo também Rúben Neves que é um jogador muito
acima da média para uma 2ª linha de uma seleção do nível de Portugal. No
ataque, o cenário deixa ainda mais água na boca. Desde elementos mais novos
que, com 21/22 anos são já jogadores de classe mundial como Trincão, Rafael
Leão e, especialmente, João Félix, Fernando Santos tem ao seu dispor Diogo
Jota, André Silva e, claro, Cristiano Ronaldo que, embora já perto do final da
sua histórica carreira, continua a um nível estratosférico quando comparado com
os “comuns mortais”.
Em
suma, aquilo que a seleção apresenta é muitíssimo pouco quando olhamos para o
lote de opções à disposição do Engenheiro. Fernando Santos conseguiu retirar
muito mais de um grupo que estava muitos furos abaixo do grupo atual, mas
parece que desde a vitória em França que pretende viver o resto da sua carreira
debaixo da luz dessa conquista.
Se
nada mais o mover a sair da seleção, Fernando Santos deveria perceber como
estes últimos 4 anos mancharam completamente o legado que podia ter deixado. O
selecionador português poderia (e deveria) ter deixado a equipa das quinas
depois de ter conquistado a Liga das Nações, e seria lembrado durante gerações
como o treinador que conquistou os 2 primeiros troféus pela equipa principal da
Seleção Nacional. Quanto mais tempo se arrasta no seu lugar, menos relevância
terão essas conquistas no futuro. Continuará a ser o treinador que conquistou 2
títulos, mas será também o treinador que desperdiçou (pelo menos) 4 anos das
melhores gerações que o futebol português produziu.
A
Federação
Um
dos principais motivos de preocupação é a aparente falta de visão e controlo da
FPF. De há uns anos a esta parte que se multiplicam os casos de sub-rendimento
e de convocatórias questionáveis nos vários escalões da Seleção Nacional. O
rendimento desportivo, que deveria ser o principal critério para uma chamada,
parece ter passado para segundo plano, vítima de interesses de agentes, clubes
e mediatimo. Este é um problema orgânico de todos os escalões, mas é
particularmente gritante nos sub-21 e nos AA.
Falando
do muito badalado caso de Gonçalo Inácio, o jovem central é há praticamente um
ano titular indiscutível do Campeão Nacional e atual líder do Campeonato
Nacional. Ainda assim, tal não justifica uma chamada à Seleção, optando
Fernando Santos por um central em fim de carreira (José Fonte), que não é certo
que ainda jogue pela altura do Mundial do Qatar. Pior do que isso, Gonçalo
Inácio não mereceu sequer uma chamada aos sub-21. Temos também casos de
jogadores que fizeram uma época inteira a titular nos seus clubes sem nunca
terem sido chamados, e após uma pré-época e meia dúzia de jogos nos seus novos
clubes, são imediatamente convocados. As qualidades desses jogadores não estão
em causa, mas terá sido a pré-época, ou a cor da camisola, que os tornou
merecedores duma chamada?
Rui
Jorge e Fernando Santos escondem-se atrás do argumento da experiência para
justificar as suas escolhas. Em qualquer um dos casos, é um argumento fraco.
Quanta experiência será necessária para jogar nos sub-21? E mesmo que seja,
terá Gonçalo Inácio menos experiência que Eduardo Quaresma, Diogo Queirós,
Tiago Djaló ou Araújo? Quanto aos AA, como pretende Fernando Santos que um
jogador ganhe experiência de Seleção sem nunca ser chamado para a…Seleção? E o
que erro crasso poderia um jogador inexperiente cometer num desses jogos?
Poderia, por exemplo, ser expulso a 10min do fim de um jogo por dar uma
cotovelada num jogador quando já tinha um cartão amarelo? Imagine-se…
Os
jogadores
Como
já aqui foi dito, nunca antes se viu em Portugal um grupo tão grande de talento
individual à disposição de um selecionador. Desde jogadores em final de
carreira (Pepe, Cristiano Ronaldo, Rui Patrício), a jogadores no auge das suas
carreiras (Rúben Dias, João Cancelo, Ricardo Pereira, Bruno Fernandes, Bernardo
Silva, André Silva, João Palhinha, Diogo Jota…) até jogadores jovens num nível
já bastante acima da média (João Félix, Trincão, Nuno Mendes, Renato Sanches,
Rafael Leão, Rúben Neves). A estes jogadores podemos juntar outros como Pedro
Gonçalves, Matheus Nunes, Gonçalo Inácio, Pedro Neto, Gonçalo Guedes entre
outros que, estando para já a um nível inferior, estão ainda em
desenvolvimento, apresentando contudo um nível bastante alto no presente. O
cenário é bastante positivo nos escalões de formação onde estão a aparecer
jogadores muito interessantes como Paulo Bernardo, Eduardo Quaresma, Vitinha,
João Mário, Fábio Vieira, Gonçalo Esteves, Tomás Esteves, Fábio Silva, entre
outros.
Devido
ao rumo que a Seleção tem vindo a tomar, o adepto português fica com a sensação
que todo este talento está a ser desperdiçado. Fica então a pergunta: se esta
derrota com a Sérvia ditar a saída de Fernando Santos, terá sido bom para a
Seleção Nacional? Não ir ao Mundial em 2022, ou ir e fazer uma figura
semelhante às duas últimas fases finais, será deitar fora a última fase final
do melhor jogador português de todos os tempos. Será desperdiçar a última fase
final em que algumas das principais figuras da seleção estão no topo das suas
capacidades. E será perder uma excelente oportunidade de trazer jogadores
jovens sem ter que se lhes colocar em cima a pressão de produzirem no imediato.
Pessoalmente,
trocaria de bom grado a presença num Mundial por uma mudança no comando da
Seleção.
By: Ângelo Sousa.
Tags:
Opinião


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